Fernando Sodré
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Viola de ponta cabeça - Fernando Sodré mostra que Nietzche tinha toda razão ao afirmar que "sem a música a vida seria um engano" - Por Max Velati

Por Max Velati

Victor Hugo disse que a música expressa aquilo que não pode ser dito em palavras, mas não pode permanecer em silêncio. Este respeito pela música é comum entre escritores. Quem tem a literatura como ofício, quem sofre e se alegra juntando palavras para compor um novo sentido, percebe e admira com certa familiaridade as dores e delícias de quem junta notas para compor uma nova melodia.

Diferente dos escritores, os músicos são completamente dominados pela música; súditos inteiramente dedicados ao ofício. Com o instrumento nas mãos, o tempo deixa de existir e o músico de verdade sabe que a música não é um meio para se alcançar um fim. A arte pela arte é motivo mais do que suficiente. Buscando a nota certa os músicos levantam âncora e enfunam as velas sem medo do céu carregado ou das ondas furiosas e penso que a verdadeira música exige este tipo de destemor. Sempre admirei esta coragem para errar e fazer do erro um novo arranjo, um novo acorde. Sempre invejei esta entrega e este tipo de disposição para mergulhar no mistério e descobrir o que soa mais além.

Por mero acaso e muita sorte, conheci outro dia um músico de verdade. Jovem, mas pela conversa e pela segurança, já havia cumprido com larga margem as dez mil horas de experiência necessárias para formar um mestre. Perguntei sobre o instrumento e foi então que ouvi do jovem e talentoso Fernando Sodré uma descrição rica, apaixonada e poética daquilo que Richard Sennett, no livro "O Artífice", descreve como " a ferramenta-espelho", um utensílio que nos convida a pensar sobre nós mesmos. Fiz perguntas técnicas sobre madeiras e afinações porque a minha curiosidade sobre o mundo é imensa e Fernando Sodré fez um retrato de sua viola caipira como se fala de um parente próximo e querido. Fiz então perguntas sobre a música e o jovem velho Fernando Sodré me fez entender com absoluta clareza o que para mim antes eram os mistérios insondáveis da música modal e tonal.

Algumas pessoas sabem como fazer, mas não sabem descrever como fazem. Isso faz sentido, porque na verdadeira arte e especialmente na música, há um mundo de habilidades fora do campo verbal. Suspeito que seja precisamente por isso que a literatura rende tantas homenagens `a música, reconhecendo devidamente os limites dos sujeitos, verbos e predicados diante da clave de Sol ou de Fá. Naquela tarde, em uma mesa de bar, as palavras não foram obstáculo e Fernando Sodré conseguiu trazer a música para mais perto sem diminuí-la. Fez comparações e transposições e na mesa de bar a música ficou tão presente que pensei em puxar uma nova cadeira.

No mesmo dia, ganhei de presente o CD A Viola de Ponta Cabeça. Tinha passado a tarde conversando com o autor e portanto já conhecia a sua música antes mesmo de ouví-la. A viola caipira, antes tão bem descrita, soava mesmo como um parente querido. A independência das mãos, tão difícil para quem se arrisca nas cordas, estava lá, comprovando o que disse Imamnual Kant: a mão é a janela que dá para a mente.

Se você quer conhecer um músico de verdade, vá ao show de lançamento do CD Viola de Ponta Cabeça, no Sesc Pompéia, em São Paulo. Domingo, dia 26, 19 horas. Diga a ele que Max Velati manda um abraço agradecido pela aula de música. Afinal, para citar só mais um filósofo, Nietzche tinha toda razão ao afirmar que "sem a música a vida seria um engano".

http://www.domtotal.com/noticias/711051

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